Maximização no uso da água na Cafeicultura

A retórica é verdadeira: A agricultura ainda utiliza boa parte da água potável disponível para a PRODUÇÃO DE ALIMENTOS, contudo a fundamentação para uso é muito justa e ética. Entretanto este recurso pode e deve ser utilizado com mais racionalidade. Várias pesquisas e projetos feitos no Brasil e outros países demonstram o passo a passo para este uso, sendo que na maioria das vezes não são necessários elevados investimentos na instalação de sofisticados e modernos sistemas de irrigação.

O uso eficiente da água em qualquer sistema agrícola deve ser orientado para que á água da chuva ou irrigação permaneça no sistema por um período prolongado de tempo permitindo que as raízes possam retirar água de zonas mais profundas do solo aumentando a resistência aos períodos de estresse hídrico.

Durante a implantação da lavoura cafeeira, o produtor deve estar sempre atento a construção de barreiras de infiltração de água, sejam vegetais ou mais comumente as físicas, que impeçam que a água superficial ganhe velocidade levando consigo todos os insumos aplicados na lavora para as zonas mais baixas do terreno provocando os processos de erosão e assoreamento dos corpos hídricos. São muitos utilizados como barreiras os terraços. Contudo até aqui não há nenhuma novidade haja vista que essas medidas já são adotados por muito produtores.

Ainda durante a implantação da lavoura se faz necessário a construção da fertilidade até 60 a 80 cm de profundidade, aplicando os fertilizantes, matéria orgânica e corretivos de acordo com as recomendações técnicas. Neste contexto o produtor “cria” um ambiente favorável ao crescimento das raízes fazendo melhor uso da água disponível em profundidade, consequentemente aumentando a produtividade.

Vários produtores poderiam questionar sobre a viabilidade econômica da construção da fertilidade em profundidade. Sim, é um processo mais dispendioso financeiramente, contudo é mais barato que a instalação de vários sistemas de irrigação, destacando que cada dia mais, há uma perspectiva de tornar-se mais difícil conseguir a autorização para uso da água por meio da irrigação, processo conhecido como outorga. Diante de um cenário incerto, com o aumento da demanda por alimentos e água, há necessidade de uso de técnicas que permitam fazer o uso adequado da água na propriedade e sociedade.

Nesse sentido toda água proveniente da chuva precisa infiltrar em nossa propriedade e permanecer o máximo de tempo possível no solo. Para isso se faz necessário o reflorestamento das áreas de preservação permanente, reserva legal, implantação de bacias de captação de águas das chuvas dentro da propriedade e nas estradas de acesso a mesma. Verifica-se nesse contexto que o poder público tem papel crucial neste assunto haja vista que estes órgão sãos os responsáveis pela construção e manutenção das estradas rurais devendo os mesmos atentarem para o correto manejo da manutenção das estradas rurais permitindo a infiltração e preservação da água no sistema por um maior período de tempo.

Outra estratégia que pode ser adotada/sugerida por técnicos e avaliadas pelos produtores é uso de matéria orgânica. Este resíduo está disponível seja pelo manejo do mato das entre linhas (Figura 1), ou pela aplicação direto nas linhas de cultivo (Figura 2) no qual protege o solo da irradiação e apresenta grande capacidade para “segurar” a água, funcionando como uma esponja. Há diversos resíduos que podem ser utilizados, mas a recomendação é que o produtor faça uso dos materiais que estejam disponíveis na propriedade. Além dos benefícios do “sequestro” temporário da água a matéria orgânica melhora as propriedades físicas, biológicas e químicas fornecendo nutrientes as plantas.

Figura 1 – Manejo do mato na entre linha
Fonte: Bruno Melo (2019)

Outro sistema que tem ganhado a atenção de cafeicultores são os SAF’s (Sistemas Agroflorestais), modelo de produção que combina em uma mesma área a produção de café e outras plantas como é o caso de árvores nativas, leguminosas, gramíneas e frutíferas. Neste sistema pela manutenção da cobertura do solo e pela disposição das plantas permite a infiltração e manutenção da água. Este modelo de produção apresenta como vantagem uma maior diversificação de produção, menor ocorrência de pragas, doenças, maior resistência a geadas e secas. Também não há nada de novo haja vista que estes sistemas já existem a milhares de anos. Na verdade há novidade está na maior adoção pelos produtores tendo em vista o respaldo científico da técnica.

Figura 2 – Deposição de mato da linha do cafeeiro com o aumento da matéria orgânica
Fonte: Bruno Melo (2019)

A proposta do artigo não é esgotar o assunto nem mesmo dar uma “receita de bolo”, ou mesmo não fazer o uso da irrigação; na verdade tratamos de um assunto complexo e que a eficiência de uso da água se dará pelo manejo consciente que consiste na adoção de várias técnicas de maneira simultânea. Portanto a mensagem consiste na apresentação de um “norte” para que os cafeicultores e toda sociedade tenham em mente um dos grandes desafios da humanidade: Produzir alimentos e demais produtos para a sociedade de maneiras mais eficiente, principalmente com o uso da água.

Importante mencionar que estas medidas para o uso eficiente da água torna o sistema de produção mais ecológico, economiza o recurso água e faz do produtor de café também um produtor de água no qual toda sociedade é beneficiada.

Autor: Bruno Manoel Rezende de Melo, Tecnólogo em Cafeicultura, Doutor em Agronomia/Fitotecnica. IFSULDEMINAS-Campus Inconfidentes.

Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/4059991435170878

Autor: Telma Miranda dos Santos, Engenheira Agrônoma, Doutora em Fitotecnia/Universidade Federal de Viçosa

Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/3303977037928551

Autor: Thalia Rosa da Silva, Graduanda em Engenharia Agronômica – IFSULDEMINAS-Campus Inconfidentes.

Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/1656227409589947

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