A moça do bilhete
( http://yesminas.blogspot.com/2015/01/a-moca-do-bilhete.html?m=1)

Agosto 2014

Agosto 2014

Agosto 2014
Acordei com a lembrança do fatídico 1º de novembro de 1755.
Por volta das 9:30 da manhã, Lisboa foi sacudida por um intenso terremoto que dizem ter vitimado mais de 30 mil pessoas.
Após o forte tremor, ondas gigantescas cobriram a cidade, que também foi arrasada por muitos incêndios em vários pontos e bairros. Era dia de Todos os Santos e as igrejas estavam cheias de gente e de velas.
Saímos de Coimbra bem cedo. Acabamos de chegar em Lisboa. É feriado nacional em Portugal. Hoje, 15 de agosto, é dia da Assunção de Nossa Senhora. Como é linda a estação de trem!
No caminho para o hotel começo a imaginar o impacto dessa tragédia na vida da cidade.
Ficamos hospedadas bem próximas à praça Marquês de Pombal. Aliás, este foi o homem que reconstruiu a cidade: “enterrem os mortos e cuidem dos vivos“. Os reis de Portugal escaparam ilesos da tragédia.
É que após a tradicional missa, por insistência das filhas, resolveram passar o feriado na parte mais alta e retirada da cidade. O terror daquele fático dia foi tanto que, petrificados pelo medo, mandaram construir seus aposentos em luxuosas tendas morro acima.
Desde esse dia a Monarquia não seria mais a mesma.
Dizem que tal evento foi tão traumático na vida das pessoas daquela época que mudou o modo de pensar e agir em todo o mundo.
Pensadores iluministas como John Locke, Voltaire, Montesquieu, Rousseau, Adan Smith e muitos outros agora tinham uma base sólida para semear as suas ideias.
Foi assim que o uso da razão em detrimento aos desígnios de Deus colocaram em desvantagem todo o clero católico e as Monarquias Absolutistas.
Foram declarados extintos todos os colégios onde os Jesuítas, ao lado do saber, professavam a sua fé nas colônias portuguesas.
Para não perderem todo o poder para uma burguesia desejosa de mudanças surgiram os governos dos Déspotas Esclarecidos. Marquês de Pombal era um deles.
Pois é, foi com tudo isso em minha cabeça que fomos conhecer a Torre de Belém e o belo Mosteiro dos Jerônimos. O dia estava lindo. Compramos os ingressos que, diga-se de passagem, não são nada baratos, por isso optamos por um combo (Torre de Belém + Mosteiro dos Jerônimos).
É gostoso se deixar levar pelo calçadão ao longo do Rio Tejo. Enquanto caminhávamos a história desse fatídico dia serpenteava os meus pés.
Entramos na longa fila para visitar a Torre de Belém. Coloquei o meu bilhete no vão dos meus dedos e preparei o arsenal para fotografar cada passo. Quando estávamos quase chegando na entrada, por uma distração minha, o meu bilhete saiu voando e caiu no canal do Rio Tejo.
Sem pensar, tirei rapidamente os meus sapatos e segui o papel voador. Quando vi, tinha descido uma rocha de pedra e já estava com os pés na lama. Era um brejo escorregadio e preto, mesmo assim, sem olhar para nada e nem pensar em ninguém, me pus, feito caranguejo, em busca do bilhete.
Quando me aproximava, com muita dificuldade para não cair, o bilhete voava e seguia a correnteza. Mais um passo. Mais um vento danado. Mais três passos e lá se vai ele feito um barquinho de papel.
De repente, segurei o bilhete na ponta dos dedos. Ouvi uma gritaria danada, várias pessoas me acompanhavam e torciam e eu só me dei conta da cena quando o bilhete estava de novo comigo. O esforço foi tanto que levantei os braços e agitei o bilhete para comemorar.
Dali em diante fiquei conhecida em Lisboa como a moça do bilhete. Onde ia todos me reconheciam.
Alguns acharam que fosse algum tipo de promoção, porque meu vestido tinha a estampa dos azulejos azuis de Portugal.
O senhor que fiscalizava a entrada disse que eu poderia ter entrado assim mesmo, mas que ficou impressionado com a minha disposição e vontade de conhecer a Torre de Belém.
Queriam saber o meu nome e de onde eu era. Uai, de Ouro Fino, sou brasileira com certeza!
Ganhamos uma visita guiada ao Mosteiro dos Jerônimos. Dois jovens estudantes de História nos contaram tudo e algo mais.
Uma senhora japonesa e várias outras pessoas me ajudaram a limpar os meus pés, que estavam imundos e pretos. Fiquei feliz com tanta gentileza!
Depois da aventura (essa a Ilka vai poder contar e mostrar as fotos para os meus netos e netas), fomos recuperar as energias gastas e nos lambuzar com os deliciosos pastéis de Belém.
Enquanto eu ria de mim mesma, pensei: será que foi um ventinho desse que nos trouxe até aqui?

Existe um idêntico na Capela do Menino Deus na cidade de Florianópolis, SC, Brasil

Agosto de 2014
(Fotos e texto: Consuelo Pitaguary)